NINGUÉM PODE ACORDAR AQUELE QUE FINGE DORMIR

Sobre a coragem de ver, sentir e despertar

 

Você já tentou ajudar alguém que não queria ser ajudado?

Às vezes, tudo parece tão claro para quem está de fora. Vemos os sinais no corpo, nos comportamentos, nas repetições que se tornam previsíveis. Tentamos oferecer apoio, acolhimento, palavras de incentivo. Mas a mudança não acontece. O outro parece não ouvir, não ver, não sentir.

É como se estivesse dormindo.

Mas há uma diferença imensa entre quem dorme sem saber… e quem finge que está dormindo.

Aquele que finge dormir sabe — ainda que inconscientemente — que algo precisa ser olhado. Mas escolhe adiar. Escolhe o silêncio da inconsciência como refúgio. E ninguém, por mais bem-intencionado que esteja, consegue despertar alguém que ainda não está pronto para abrir os olhos.

 

Fingir dormir é um ato de resistência

Fingir dormir é uma metáfora potente. Representa o gesto — consciente ou semiconsciente — de evitar a verdade. Uma forma de autoproteção que, no fundo, apenas posterga o inevitável.

A gente finge dormir quando:

  • Sabe que algo precisa mudar, mas não quer lidar com o desconforto da transição.
  • Percebe os sinais do corpo, mas escolhe ignorar.
  • Sente o peso emocional de um ciclo esgotado, mas continua por medo do vazio.

Fingir dormir é tentar manter tudo sob controle, mesmo quando o corpo grita por alívio, a alma por liberdade e a vida por renovação.

Só que esse sono não é descanso — é entorpecimento.

E o preço, cedo ou tarde, aparece: nas doenças emocionais, nos relacionamentos desgastados, na sensação de estagnação ou vazio.

 

Acordar é uma escolha, não uma imposição

Essa é uma das verdades mais difíceis de aceitar no caminho do desenvolvimento humano:
ninguém desperta ninguém.

Podemos inspirar, acolher, provocar reflexões. Podemos ser presença, farol, espelho.
Mas não somos capazes de acordar quem, por algum motivo, ainda escolhe não ver.

Despertar exige disponibilidade. Exige coragem.

E só pode ser iniciado a partir de dentro.

Esse é o limite do outro: ele pode oferecer caminhos, mas não pode caminhar por nós.

 

Quando fingir dormir se torna insustentável

Há um momento — para todos nós — em que fingir dormir se torna pesado demais.
Os cansaços não passam. Os medos se repetem. As feridas não cicatrizam porque continuam sendo evitadas.

E então, algo dentro começa a sussurrar com mais força:

“Não dá mais para adiar.”

O corpo começa a mostrar sinais. A vida dá pequenos empurrões. E o incômodo de permanecer adormecido começa a ser maior do que o medo de despertar.

Esse é o momento exato em que algo novo pode nascer.

 

Despertar é um ato de amor-próprio

Despertar não é apenas tomar consciência.

É escolher agir a partir dessa consciência.

É olhar para dentro com honestidade e perguntar:

“O que em mim está pedindo para ser visto?”

O processo é gradual. Às vezes dói. Quase sempre assusta.

Mas também liberta.

Despertar é deixar de fingir.

É escolher viver com inteireza, mesmo que isso signifique sair do lugar conhecido.

É, acima de tudo, um gesto de profundo amor por si.

 

Para encerrar: o que ainda dorme em você?

Talvez você tenha lido este texto sentindo que ele fala de alguém que conhece.
Mas, e se ele também falar de você?

Todos nós, em alguma medida, já fingimos dormir. Por medo, por cansaço, por não saber o que fazer com o que iríamos encontrar ao abrir os olhos.

Mas chega uma hora em que não é mais possível adiar…

O que dentro de você está pronto para acordar?

 

Com cuidado,

Magali Castro

 

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